quarta-feira, 13 de junho de 2012

Tempo, taime e время

   É o seguinte: vocês vivem me chamando de ingrato, dizem que eu não volto e que eu não espero por vocês. Em primeiro lugar, eu gostaria de carinhosamente chamá-los de idiota. Qual a graça de alguém que passa sempre, e depois ainda por cima volta? Se eu sou tão precioso e valioso para você é justamente pelo fato de eu não voltar. Eu passo e já era. Além disso, você não tem moral alguma para me julgar. Estou nesse emprego há mais de 4 bilhões de anos e acho que já me familiarizei com a mecânica do negócio, coisa que você, em seus oitenta, noventa anos, jamais conhecerá. Então aqui vai uma dica de quem já viu muita coisa: me aproveite. Você mesmo vive dizendo que eu só passo uma vez, que eu não volto. Então me aproveite, oras. Quando eu passar, me abrace, dance comigo e simplesmente aproveite. E quando eu já estiver longe, não me desperdice pensando no que você poderia ter feito. Faça. Eu só passo uma vez mas estou sempre passando. Se você se arrependeu de algo que fez ou deixou de fazer, aproveite o agora para que não tenha de se arrepender de novo no futuro.
   E por favor, não me chame de ingrato. Ingrato é você que não aproveita o maior presente que a vida pode te dar, que modéstia à parte, sou eu mesmo. Pare de me culpar por você ser um incompetente, por você ter medo, por não ser feliz. Aproveite que eu estou sempre passando. Agora mesmo, saia daí e me pegue pelo braço. Se você vier comigo, tenho certeza que posso te mostrar coisas e lugares que você jamais imaginou existirem. Tudo o que você tem que fazer é vir comigo. Sem medo e sem olhar para trás.
   Feche os olhos e aproveite.
   Porque só acontece uma vez, e depois disso eu vou embora.
   Fui.
   E não volto mais.

domingo, 27 de maio de 2012

Os Apitadores®

  Eu acredito piamente no poder dos elogios. Acredito na sua força motivacional e estimulante, no seu poder de instigar as pessoas a melhorar e dar o devido reconhecimento ao trabalho que vem sendo exercido. E hoje estou aqui para elogiar o trabalho dos homens responsáveis por noites tranquilas de sono. São os vigilantes que nunca dormem. Os cavaleiros da justiça. Eles são a lanterna no meio do apagão. A faca que corta o pão.
  Eles são Os Apitadores.
  Pra quem não conhece (e que Deus te perdoe) é tipo uma versão tupiniquim de Os Vingadores. Isso é o que alguns podem dizer. A verdade é que Os Vingadores é uma versão Hollywoodiana de Os Apitadores. 
  Qualquer pessoa com acesso a qualquer meio de comunicação sabe o quão perigosa é a cidade de São Paulo. E é quando a noite cai, os lobos uivam e as donzelas estão escondidas em suas casas que Eles aparecem. Verdadeiros fantasmas, mestres nas artes ninja de Taubaté, eles nos defendem. Estão sempre lá com o seu som característico para nos lembrar que a justiça não dorme e não falha.
  Não estão atrás de fama ou reconhecimento. Deixam, sem relutar, a polícia levar os créditos por suas ações. Recolhem suas recompensas no sorriso inocente de uma criança e nos olhares gratificantes dos passantes. Saber que o mundo sobreviveu a mais um dia, e que as pessoas estão vivas para ver o Sol nascer outra vez é suficiente.
  Se ainda não ficou claro a magnitude desses homens nas nossas vidas, tentarei colocar de outra forma.
  As crianças quando vão dormir colocam um pijama do Super Homem. O Super Homem quando vai dormir coloca um pijama do Chuck Norris. O Chuck Norris quando vai dormir usa um pijama do Chuck Norris, afinal ele é o Chuck Norris. Mas o que poucos sabem é que na sua mesa de cabeceira, ao alcance da mão, há um apito. Ao primeiro sinal de distúrbio na energia terrestre, aquele apito soará. E eles se juntarão. E a paz será reestabelecida.
  No momento em que eu fecho os olhos para dormir e minha mente começa a divagar sobre os perigos que habitam a escuridão, apenas uma coisa é capaz de me acalmar. Um som.
  Um apito. Piuiiiiiiiiiiiiuiiiiiiiiiiiii.
  Como poderia me preocupar quando sei que eles estarão lá? Não importa quantos bandidos tenham armas, quantos ETs tenham invadido a Terra e quantos presidentes idiotas estejam no poder. Que o mar se levante em fúria e a Terra se abra para nos devorar. No mais profundo círculo do inferno ou no mais distante planeta do universo, eles estarão lá para nos proteger.
  Um apito é o suficiente para cessar guerras, fazer o paraíso tremer e fazer os demônios voltarem para o inferno.
  O tamanho da segurança: um apito.
  O preço: sua noite de sono.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cachorro-quente, MST e Farofa.

   Eu não tenho lá muito controle sobre mim mesmo. Eu até consigo, dependendo do tamanho da vontade ou necessidade, correr alguns km, segurar a fome até a hora da próxima refeição e ainda fazer uma coisa ou outra que não me agrade. Só não inclua o sono no meio.
   Eu estou em casa, depois do almoço, e os olhos pesados quase desistiram de abrir. Talvez você seja familiar com a situação. Enfim, eu pego o celular, coloco-o para despertar em vinte minutos e vou dormir. Deito na cama, no sofá ou no chão dependendo da minha sorte na ocasião e fecho os olhos. Antes de dormir prometo a mim mesmo acordar ao primeiro sinal do despertador. Completado o ritual, me viro para o lado e 1, 2 e zZzZzZzZzZ...
   O meu controle sobre o sono é estranhamente semelhante ao de um homem preguiçoso sobre seu cachorro incansável. Se o homem precisar segurar o cachorro, vamos dizer que passa uma mulher em um vestido de carne, ele até consegue. Apesar de que, covenhamos, ele bem se sentiu tentado a deixar o cachorro pegar aquela carne, mas enfim... Agora, vamos dizer que o homem precisa parar o cachorro porque tem um rato passando, ele até segura o cachorro, mas assim que este decide partir para cima, o outro já solta e fica com aquela cara de "Ah, mas eu tentei."
   Uma música familiar começa a tocar, a princípio baixinha, no limiar da audição, e depois crescendo até se tornar impossível de ser ignorada. É o meu despertador. Estico o braço para a mesa da cabeceira e o desarmo. Fico um tempo olhando pro teto tentando me lembrar de onde e quando estou, mas a cabeça dói demais para qualquer pensamento coerente. Olho para a direita. Está escuro mas ainda dá para enxergar uma coisa ou outra.
   Uma fungada chama minha atenção para o lado esquerdo. Quando olho vejo um cachorro, grande e preguiçoso, deitado. Ele respira profundamente e ronca vez ou outra. Alguma coisa na minha cabeça fica me dizendo que eu devo tirá-lo de lá, mas não consigo me lembrar do motivo. E não parece ter muita importância.
   Abraço o travesseiro e fecho os olhos, com aquele pensamento ainda martelando na cabeça.
   "Só dessa vez" penso eu tentando me tranquilizar.
   "Só dessa vez..." e volto a dormir.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Cordialidade efetiva





"Para todos os que usam produtos da concorrência:
 

                Feliz dia dos pais."    
           





   Durex, fabricante de preservativos.


   Simples e efetivo. Genial.

Haikai romântico

   O amor é como uma flor,
   que murcha
   e vira adubo.

Jornalismo

                                                               Millôr Fernandes.
   
   Li recentemente que a missão da imprensa é de ser "os olhos e ouvidos" da nação.
   Preparem-se para unicórnios sem chifre na cobertura do apocalipse.


domingo, 6 de maio de 2012

Futuro, sonhos e power rangers.

  O herói a ser retratado aqui atende pela alcunha de Alfredo. Um jovem que vivia pensando no futuro e na miríade de possibilidades e aventuras que estavam por vir. Pensava em várias delas, ansioso pelo dia em que elas chegariam.O fato é que pensava tanto no futuro que, aos cinco anos já sabia o que queria ser.
  - Pai, eu já sei o que quero ser quando crescer.
  - O quê, filho? - pergunta o pai, surpreso pela conversa do filho.
  - Um power ranger.
  - O quê?
  - Aquele herói da TV, sabe? Aí eu vou poder lutar com os monstros.
  Como o filho ainda era pequeno, o pai pegou leve na hora de tirar a ideia absurda da cabeça do pequeno, mas tentou deixar claro que sonhos não levam a lugar algum.
  - Mas filho, você não acha perigoso? Além do mais que você ficaria muito tempo longe de casa, e quem faria companhia para mim e pra sua mãe?
  O pequeno parou um pouco para pensar e viu que não era mesmo uma ideia tão boa.
  Alfredo cresceu, mas não abandonou seu espírito sonhador apesar da falha de planejamento do sonho anterior.
  - Pai, - começou o menino de agora nove anos que acabara de ganhar uma bicicleta nova - eu já sei o que quero ser quando crescer.
  - O quê, filho? - perguntou o pai tendo um déjà vu.
  - Eu vou andar de bicicleta. Agora que já sei andar sem rodinhas e consigo descer a rua da casa da tia Alda acho que eu já tô pronto. E ah, não precisa se preocupar, eu vou fazer companhia pra você e pra mamãe. Quando eu for andar eu não preciso ir muito longe não, eu fico na rua de casa mesmo aí eu vou estar pertinho.
  O pai ficou comovido em como o filho havia se preocupado com ele e a esposa, mas precisava tirar logo essas besteiras da cabeça do moleque, senão, sabe-se lá o que ele se tornaria.
  - Filho, mas e se um dia você cair e se machucar? Como eu e sua mãe ficaríamos? Você pode ser atropelado e quebrar uma perna ou algo pior, que Deus me livre. O papai só te avisa sobre isso, porque quer o melhor para você.
  Mais uma vez, o não mais tão pequeno sonhador parou para pensar e viu que realmente era um pouco perigoso. O Douglas, que morava na rua de cima, havia caído e precisou ir pro hospital. E Alfredo não gostava de hospitais.
  O tempo passou, Alfredo cresceu e agora tinha o plano perfeito.
  - Pai, eu já sei o que quero ser quando crescer.
  - O quê, moleque? - o pai achou que havia arrancado de vez essas besteiras da cabeça de seu filho mas pelo visto ele se enganara.
  - Jogador de futebol.
  Precisava cortar essas ideias da cabeça de Alfredo de uma vez por todas, portanto seria mais duro agora.
  - Alfredo, ma - e o pai foi interrompido.
  - Calma pai, já pensei em tudo. Apesar de ter de viajar pros jogos, isso é só no final de semana, então eu vou poder fazer companhia pra vocês dois. Ah, e não tem perigo nenhum porque todo mundo usa caneleira, então vocês não precisam se preocupar com machucados.
  - Filho - começou o pai de forma dócil - você gosta da TV que tem no seu quarto? Você gosta da casa, das roupas e da comida? - Alfredo balançou a cabeça concordando com todas as perguntas - Então, pra ter tudo isso é preciso dinheiro.
  - Mas pai, isso não é problema, olha quanto dinheiro o Ronaldo tem.
  - Tá, mas você sabia que mais de noventa por cento dos jogadores de futebol do Brasil ganham menos de quinhentos reais por mês? Como é que você vai sustentar a mim e a sua mãe ganhando pouco? E eu não tô te dando bronca, só quero o melhor pra você.
  O agora adolescente Alfredo percebeu que na vida é realmente difícil ganhar dinheiro fazendo o que se gosta.
  O tempo continuou passando e Alfredo, com dezoito anos, no último ano da escola, teve outro papo com o pai sobre futuro.
  - Pai, eu não sei o que quero ser quando crescer...
  - Alfredo, assim não dá! Como você vai sustentar a mim e a sua mãe, como vai cuidar de nós sem saber o que fazer? Eu já avisei pra você tirar essas besteiras da cabeça, não se trata de querer! E eu já vou logo avisando, filho vagabundo não vive debaixo do meu teto. E eu só falo isso pois quero o melhor pra você!
  Mesmo um tempo após um cabisbaixo Alfredo ter deixado a presença do pai, este ainda sussurrava pra si mesmo:
  - Só me faltava essa mesmo. Não sabe o quer quer fazer... Meu Deus, onde foi que eu errei com esse moleque?