terça-feira, 23 de outubro de 2012

O futuro a nós pertence


   O julgamento do mensalão acabou. Após a dosimetria, quem tiver de ser preso será, e o mensalão se verá livre para voltar para onde esteve durante os sete anos que separam a denúncia e o julgamento: o esquecimento. O julgamento foi manchete de jornais e revistas ao longo dos últimos meses, constantemente aclamado e aplaudido, classificado como um marco na história do Brasil, uma afirmação do poder e da independência do judiciário, e o fim da impunidade no país. O julgamento foi importante, mas também foi farsa. O mensalão foi basicamente um esquema de desvio de verba pública utilizada pelo PT para a compra de apoio no congresso. A mídia caiu em cima, o povo assistiu a novela, e o mensalão é agora citado como um dos maiores escândalos da história política desse país. Mas a verdade é que o mensalão acontece em todas as eleições, e não apenas no Brasil. A diferença é a apresentação. Em todas as eleições os partidos aparecem em coligações, que não se dão por afinidade ideológica (tem político que desconhece a palavra), mas sim por compra de apoio através de cargos públicos. Você pode dizer que isso é legal, afinal não configura desvio de dinheiro público e não fere nenhum princípio da democracia, mas tomemos os ministros, que são escolhidos de quatro em quatro anos pelo presidente, como exemplo. O salário de um ministro é atualmente de aproximadamente 25 mil reais, desconsiderando os benefícios que a carreira pública e o cargo eminente garantem. O Brasil possui 25 ministérios, logo temos 25 ministros, que recebem, no mínimo, 325 mil reais por ano cada um, e possuem juntos orçamento anual de R$ 1.917.825.171.201,00 para melhorar o país. Os ministros são escolhidos sempre que começa um novo mandato, portanto é gasto em salário R$32.500.000,00. entre uma escolha e a renovação, valor mais alto do que o repassado para compra de votos no mensalão segundo o procurador-geral da república. Não é segredo pra ninguém que ministérios são usados como moeda de troca na hora de conseguir apoio, afinal é assim que a política funciona. Mas e os danos causados por essa prática? Com certeza vão muito além dos 32,5 milhões de reais gastos com salário de ministros, pois além de essa prática não se restringir apenas às esferas mais altas do poder, ela afeta diretamente o desenvolvimento do país, ao colocar o nosso futuro na mão de pessoas muitas vezes despreparadas que nada fizeram para merecer o cargo além de estar em um partido aliado. Imaginem, lembrem, pesquisem os problemas que um ministro ruim, os anos de atraso que alguém despreparado pode trazer para o país, tendo o nosso futuro – e muito dinheiro – nas mãos.
   Um mensalão acabou.
   E é hora de decidir se e o que faremos com relação aos outros.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Saudade, Maldade, Cidade


   A fumaça que sai dos escapamentos pinta de cinza um céu cujo Sol deixou de brilhar há muito tempo. Há cheiro de urina aqui, comida ali e dinheiro lá. Massas de pessoas cercadas por todos os lados sentindo-se sozinhas.
   Sob a luz de postes, pessoas se casam, se rejeitam, se amam e se odeiam. Desesperadas, as pessoas roubam, matam, choram  e se separam. Cada um por si no meio da selva. Só que, neste caso, nem o mais forte sobrevive.
   Um menino de onze anos deita sob uma ponte, aperta os próprios braços contra o peito e fecha os olhos, mas não consegue mantê-los fechados. Abre-os de cinco em cinco segundos, para garantir que não há ninguém lá, no escuro dos olhos fechados, esperando para atacá-lo, devorá-lo e seguir em frente. Tira o revólver da calça e o segura nas mãos. Cobre a frente do corpo com um casaco. E, agora sim, fecha os olhos.
   Um homem de trinta e quatro anos volta para casa mais cedo. Acabou de receber uma promoção. Sua mãe estaria orgulhosa, se ainda estivesse viva. Está parado no engarrafamento infindável. De repente, todos os barulhos se transformam em silêncio, como se o mundo prendesse a respiração esperando pelo sinal verde. Esse tempo é fatal. O tempo de silêncio, o tempo para pensar. Ele olha para o anel de ouro no dedo da mão que aperta o volante e fecha os olhos. Quando abre, o sinal está verde, e o barulho ecoa com a mesma intensidade, mas aquele homem jamais será o mesmo. Muda de caminho, e esquece de avisar o GPS, que o alerta constantemente de que está no caminho errado.
   Uma mulher de setenta e nove anos fecha os olhos. Está esparramada no sofá. O garoto de três anos tenta acordá-la. Ele está com fome. Ela continua a dormir, e ele começa a chorar. Sua avó não acorda. Ele chora, chora e chora, até a cabeça começar a latejar, os olhos ficarem pesados e ele se sentir cansado demais. Fecha os olhos e dorme, no chão da sala, ao lado de sua avó. Esperando que, ao acordar, eles possam brincar juntos.
   Uma mulher de vinte e quatro anos acaba de realizar seu sonho. Observa pelas janelas de vidro do maior edifício da cidade a dimensão de tudo aquilo, imaginando o dia em que tudo será seu. Vê pessoas lá embaixo, pequenas formiguinhas, zanzando de um lado para o outro. Parecem desorientadas. Fecha os olhos e pensa no que acabou de conquistar. Uma voz familiar diz bem baixinho, um sussurro quase inaudível “E agora?” Ela olha para trás e não vê ninguém. Sente medo. Sempre soube que ela voltaria. Olha para a janela e abre a que está na sua frente. Sente o vento gelado que entra gritando e treme. Olha uma última vez para trás. E então de repente o mundo se transforma em vento.
   Assiste indiferente a tudo isso a cidade.
   Enquanto a vida acontece, enquanto o destino de seres humanos é decidido em uma fração de segundo, a cidade continua. Impassível, indiferente e apática.
   Não sente falta de nenhum dos que vão e muito menos dos que ficam.
   Pessoas, famílias se orgulham de terem participado da construção da cidade, de terem-na transformado em um lugar melhor. Mas a verdade é que ela não se importa. As engole como se não fossem nada. E esperam pelos próximos que virão, em um ciclo infindável de indiferença.

domingo, 30 de setembro de 2012

Frases da semana #6

 1# Psicologia reversa é o contrário do que se pensa.
(Falsa cultura. Ou será que...)

 2# Foda mesmo é vida de atriz pornô.

 3# Cada país tem a realeza que merece. O Brasil, por exemplo, tem a Xuxa e o Pelé.

 4# Eu sou um eterno otimista. Acredito, por exemplo, que apenas uma pequena parcela da população é cruel, desonesta e desumana, enquanto o resto não tem coragem.

 5# Ansiedade é a saudade do que ainda não chegou.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Finesse, classe, elegância, sofisticação


   O garçom deixou a conta na mesa e Armando a pegou antes que o amigo pudesse se mexer, ambos ainda se recuperando das risadas.
-       Fala aí quanto deu, - disse Caio recuperando o fôlego – a gente racha meio a meio.
-       Nem vem, faz mó tempão que eu não te vejo e você quer pagar a conta?
-       Nada a ver, fala aí quanto deu logo.
   Caio se esticou para alcançar a conta mas Armando a tirou do alcance com a mão esquerda, enquanto a direita entrava no bolso em busca da carteira.
-       Deu o quê? Quarenta? Vou deixar vinte aqui – disse Caio jogando um Mico na mesa.
-       Pode guardar isso, para de besteira.
-       Pô, para com isso.
-       Não. Guarda essa merda aí que quem paga hoje sou eu. Não adianta insistir, hoje é por minha conta. E para de encher meu saco, hein. – Armando disse começando a rir.
-       Tá bom. Mas só hoje hein. – disse Caio guardando a nota de novo na carteira.
   Silêncio. Armando parou no meio do movimento de procurar as notas e as pessoas que estavam no bar congelaram. A tensão era palpável e todos esperavam a reação de Armando que, mesmo com os olhos arregalados, não enxergava nada além de sua carteira, a conta e seu amigo.
-       O quê? Eu não ouvi o que você disse.
-       Pode pagar, mas só hoje hein.
-       Como assim, pode pagar? Que porra é essa? Eu tenho cara de banco pra ficar pagando as coisas que você come? Eu tenho cara de agiota? Não, não, melhor, eu tenho cara de palhaço? Pô, a gente se reúne aqui, maior alegria, confraternização e você me solta uma merda dessas? Isso aqui não é um encontro pra eu pagar pra você. Você vai dar pra mim? Hein, vai dar pra mim hoje?
-       Não cara, eu só achei que... pô, você ficou insistindo pra pagar e-
-       E coisa nenhuma, você é um puta de um folgado. – pegou uma nota de cinquenta e jogou em cima da mesa. – Olha, nem me procura mais, finge que eu não existo.
   Se levantou e foi embora, murmurando para si mesmo:
   - Pô, puta cara sem educação...

domingo, 23 de setembro de 2012

Frases da semana #5

 1# Moisés; esse sim foi um divisor de águas.

 2# Reparem: a rua pode ser sem saída, mas nunca sem entrada.

 3# Mais entropigaitado do que um indivíduo privado de qualquer acuidade visual em meio a uma troca de projéteis. 
“Mais perdido do que cego em tiroteio.”

 4# Esnobar é comprar câmera profissional e tirar foto no automático.

 5# E a gordinha queima calorias
      correndo decidida 
      para a doceria.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Consulta do inferno


   Minha mão estava ensopada de suor. Meus olhos ardiam e meu coração batia descompassado, quase tão alto quanto aquela máquina infernal que eu ouvia do outro lado da porta. O ponteiro do relógio na parede passava devagar, como que para prolongar minha tortura. A cada vez que a máquina parava e os murmúrios chegavam até mim, eu imaginava o infeliz que estava lá agora, cuspindo sangue e pedindo a Deus que tudo acabe o mais rápido possível.
   Às vezes eu ouvia o sádico que aplicava a tortura rindo por cima do motor da máquina e um tremor me subia a espinha, quase como se um dedo de gelo deslizasse devagar pelas minhas costas, anunciando o que estava por vir. Minha blusa estava pesada de suor quando o desespero tomou conta de mim e eu decidi tentar o que homem algum havia conseguido.
   Levantei-me com calma, sem fazer movimentos bruscos, evitando qualquer barulho, e caminhei até a porta. Fiquei de costas para ela e me apoiei bem devagar, com os olhos percorrendo a sala onde eu me encontrava, alerta para o caso de alguém surgir e me surpreender. Apalpei a porta procurando a maçaneta e quando a encontrei girei-a lentamente. Meu coração agora batia tão rápido que eu pensava que eles ouviriam e entrariam na sala a qualquer momento, e eu sabia que se isso acontecesse eu pagaria caro. Girei a maçaneta até o final e meu coração parou ao mesmo tempo que o barulho da máquina. A porta não abria. Ouvi passos vindo na minha direção, chegando lentamente, e eu sabia que seria a minha vez. Era tudo ou nada.
   Comecei a puxar e chacoalhar a maçaneta de todas as formas possíveis, mas a porta estava trancada. Provavelmente a tranca era reforçada, justamente para ocasiões como essa.
   A porta do outro lado da sala se abriu e eu puxei a maçaneta mais uma vez, só por desencargo de consciência.
   Nada.
   - Boa tarde Sr. André, é a sua vez.
   Olhei para o meu carrasco e dei um sorriso fraco.
   - Ué, o que você tá fazendo aí na porta? Tava querendo ir embora?
   - Ir embora? Imagina. Eu só queria um pouco de ar.
   Ele tinha na cara um sorriso que parecia totalmente genuíno, e em seus olhos eu lia a diversão de decidir como eu sofreria hoje.
   Rendido, caminhei até ele e entrei na salinha onde ele mantinha os mais diversos instrumentos pontiagudos e elementos químicos perigosos. Encontrei o azarado que gritara enquanto eu esperava. Ele sorriu debilmente pra mim enquanto se retirava e eu vi que lhe faltavam uns dentes. Um arrepio quase me fez cair no chão.
   No próximo instante lá estava eu, preso a uma cadeira com a boca aberta enquanto ele decidia qual dos seus instrumentos seria a fonte da minha ruína.
   - E esses dentes, tá escovando direitinho?
   Tentei responder mas ele já enfiara um negócio de metal na minha boca.
   A verdade é que ele não se importava. Eu devia permanecer imóvel e em silêncio.
   Enquanto ele aproveitava a minha dor e pensava em como gastaria o dinheiro da consulta.

domingo, 16 de setembro de 2012

Frases da semana #4

 1# Tem gente que se acha “pessoa pública” quando na verdade de pública só tem a bunda.

 2# Aquele momento em que você está quase pegando no sono e o alarme toca, só pra te lembrar de que a vida quase sempre acontece na hora errada.

 3# Já repararam que a maioria das pessoas que não fumam, não bebem, se alimentam bem, se exercitam, tudo isso só pra viver mais, geralmente levam uma vida de merda?

 4# Aquele cara que uns poucos aguentam, muitos odeiam e ninguém gosta.

 5# O senso comum é tipo um cu que todo mundo gosta.