Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Tempo, taime e время

   É o seguinte: vocês vivem me chamando de ingrato, dizem que eu não volto e que eu não espero por vocês. Em primeiro lugar, eu gostaria de carinhosamente chamá-los de idiota. Qual a graça de alguém que passa sempre, e depois ainda por cima volta? Se eu sou tão precioso e valioso para você é justamente pelo fato de eu não voltar. Eu passo e já era. Além disso, você não tem moral alguma para me julgar. Estou nesse emprego há mais de 4 bilhões de anos e acho que já me familiarizei com a mecânica do negócio, coisa que você, em seus oitenta, noventa anos, jamais conhecerá. Então aqui vai uma dica de quem já viu muita coisa: me aproveite. Você mesmo vive dizendo que eu só passo uma vez, que eu não volto. Então me aproveite, oras. Quando eu passar, me abrace, dance comigo e simplesmente aproveite. E quando eu já estiver longe, não me desperdice pensando no que você poderia ter feito. Faça. Eu só passo uma vez mas estou sempre passando. Se você se arrependeu de algo que fez ou deixou de fazer, aproveite o agora para que não tenha de se arrepender de novo no futuro.
   E por favor, não me chame de ingrato. Ingrato é você que não aproveita o maior presente que a vida pode te dar, que modéstia à parte, sou eu mesmo. Pare de me culpar por você ser um incompetente, por você ter medo, por não ser feliz. Aproveite que eu estou sempre passando. Agora mesmo, saia daí e me pegue pelo braço. Se você vier comigo, tenho certeza que posso te mostrar coisas e lugares que você jamais imaginou existirem. Tudo o que você tem que fazer é vir comigo. Sem medo e sem olhar para trás.
   Feche os olhos e aproveite.
   Porque só acontece uma vez, e depois disso eu vou embora.
   Fui.
   E não volto mais.

sábado, 17 de março de 2012

A beleza do tempo

Era uma sexta-feira. Ou um sábado. Ou uma quarta. Mas não importava, não aqui. Vim para cá justamente para isso, fugir das correntes do tempo. Aqui ele simplesmente não importava. Vou vivendo, um dia após o outro, passe tempo ou não. Assim que descobri que a vida é curta demais para desperdiçá-la, fugi da cidade. Aqui a única fila que existe é a do gado voltando do pasto, guiado pelo cavaleiro em seu cavalo, com o pôr do sol como paisagem.
 Eu tinha acabado de trazer o gado do pasto, e o Sol estava maravilhoso. Por mais que eu tente, é impossível explicar. Desde onde o céu encontrava a terra até acima de minha cabeça, o céu estava laranja, vermelho e azul. As nuvens passavam, tentando diminuir a velocidade para apreciar aquela perfeita obra de arte. Eu ainda precisava ir à vila comprar velas, pois as minhas haviam acabado, e não é nada bom ficar no escuro. Eu gosto de ler antes de dormir, e fico acordado até tarde, o máximo que eu conseguir, o que deve ser por volta das oito da noite, mas como eu disse, aqui, isso não importa. Decidi deixar as velas para depois.
 Sentei-me ao pé de uma árvore e fiquei olhando a coisa mais bonita que eu já havia visto. Era exatamente por esses momentos que eu havia me mudado. Estava cansado de acordar e não ver o Sol nascer por ter de correr até o trabalho, de depois do almoço não poder parar e sentar ao pé de um poste (árvores boas são difíceis de achar em São Paulo) e aproveitar aquela sombra para descansar e ver as nuvens passarem, ou de não ver as estrelas por causa da poluição. Nesse momento, sentado, a vida fazia sentido, e meus olhos abriam-se cada vez mais, querendo gravar aquele momento para sempre na memória. Sinto até um pouco de dó das pessoas que passam a vida tentando explicá-la, pois nem que vivessem mil anos o seriam capazes de fazer. Certas coisas não se explicam, se sentem, e a vida é só mais uma delas.
 Meu olho agora ardia, e o Sol já estava quase se escondendo atrás de um monte. Fiquei pensando em como é que pode nossos olhos arderem diante de algo tão belo.
 Levantei, e fui, sem pressa, à vila para comprar as velas. Quando cheguei na vendinha, já estava escuro, e o Seu Raimundo estava fechando, mas com o bom humor de sempre me atendeu e batemos papo. Aqui as pessoas não têm pressa. Mesmo assim, despedi-me dele e tomei o caminho de volta. Acendi uma vela para não pisar em buracos. Gostava da chama e das sombras, que hipnotizavam com sua dança. Ao meu lado, passou uma moça, e quando a luz da vela iluminou seu rosto, meus olhos arderam e o tempo começou a importar. Meus olhos arderam muito mais do que haviam ardido quando olhei para o Sol, e implorei ao tempo para que ele parasse naquele instante, mas não parou, talvez ressentido pelo fato de eu não ligar para ele.
 Não importa o que os estudiosos dizem, mas nossos olhos não ardem por causa da luz ou por qualquer outro motivo, e sim por causa da beleza.
 Vocês não sabem nada. Mas acho que isso vocês já sabem.