Ele acordou com o coração acelerado, a
respiração ofegante e com suor escorrendo pelo seu rosto. A porta do seu quarto
estava fechada. Os barulhos cada vez mais próximos. As batidas. Os passos. O
vento. Tudo soando a um só tempo.
A luz do quarto estava apagada e ele sabia
que o momento estava chegando. Com os olhos apertados, tentou discernir
qualquer coisa que lhe pudesse ser útil, mas tudo o que conseguia ver era o
contorno de objetos, sombras que poderiam ser qualquer coisa ou não ser nada.
Pensou nos pais, na irmã e nos amigos de
infância. Estranhamente, a lembrança de seu professor mais chato, implicante e
autoritário veio à sua cabeça. Talvez isso fosse a prova de que ele sabia que
iria para o inferno e o encontraria lá. Pelo
menos ele também vai estar lá, pensou. Depois percebeu que na verdade isso
não era uma coisa boa. Passaram imagens de sua primeira namorada, de sua
primeira esposa e do seu chefe. Um pôr do Sol, um navio partindo no horizonte e
bonecos falantes na TV. Uma sucessão de cenas se passava diante de seu olhos e
ele as assistia indolentemente. Era como ver algo sem prestar atenção. As cenas
passavam sem deixar marcas e isso o deixava cada vez mais aturdido. Será que eu não tenho coração? O dia de
minha formatura, minha primeira namorada e o meu primeiro salário, será que
isso não significa nada para mim? Que tipo de monstro eu sou? Quando se deu
conta de seus pensamentos, tratou de cortá-los e esperar pacientemente pelo
momento final.
Ele conhecia o barulho, os passos agudos no
carpete e o vento que prenunciava sua chegada. Cada vez mais alto e mais perto,
o barulho foi chegando. Uma luz foi acesa e ele pôde vê-la pelo vão da porta.
Estava perto demais. Não adiantava se dar ao trabalho de tentar se proteger.
Se lembrou da janela que ficava ao lado de
sua cama e correu para abri-la. Morava no terceiro andar. Caso visse que o pior
estivesse prestes a acontecer, ele se jogaria. Sim, era um bom plano.
Aproveitou a luz da lua que entrava, fraca e
sorrateira pela janela e lançou um último olhar para o céu estrelado. Nunca o
tinha visto tão grande, tão bonito e colorido. Provavelmente apenas o efeito da sua chegada. Deixou para lá suas
indagações filosóficas sobre a iminência de morte e seus efeitos sobre os
sentimentos humanos e deu uma última inspirada, sugando o máximo que podia do
ar gélido da noite.
Era chegada a hora. Dois pontos de sombra se
projetavam na luz que invadia a soleira da porta. Viu a maçaneta começar a se
virar, lentamente, exatamente igual aos filmes.
Abriu bem os olhos e se preparou para o pior.
A porta se abriu, a luz invadiu o quarto e ele viu.
Seu pior pesadelo. Em vão foram todas as suas
expectativas de escapar. Agora não havia mais tempo.
- Carlos
Augusto, quantas vezes eu já não te disse? Olha só esse banheiro, encharcado.
Será que você não sabe se secar no box? E as roupas jogadas? Compramos o cesto
para quê? Olha, sinceramente eu não sei como eu te aguento hein.
Eu
também não, pensou ele enquanto aproveitava o fato de que sua esposa estava
se trocando no banheiro para se dirigir pesarosamente para a janela. Ficou em pé na cama e
pensou em deixar um bilhete para sua mãe. Pegou uma caneta na gaveta e ia
começar a escrever quando os passos voltaram a ecoar pelo quarto.
Não teve escolha. Deixou tudo como estava e
correu até a janela.
A queda foi mais rápida do que ele imaginara
e logo estava no chão. Não sentia dores. Tudo o que sentia era alívio.
Sem nunca mais precisar sair no meio do happy hour com
os amigos, sem precisar fazer mil e uma acrobacias para jogar uma simples
pelada com a galera ou fazer contorcionismos para enxergar aquela maravilha que Deus criou passando de saia, despreocupada. Tudo isso era coisa do passado. Era finalmente um homem
livre.
Gozava
da paz dos mortos quando começou a ouvir os passos infernais. E aquela voz
esganiçada que o fazia querer se jogar de uma janela.
Lembrou-se então de, na próxima vez, tentar
de uma mais alta.
Bem mais alta.
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