Uma vez estava lendo, não lembro o quê, de C.S Lewis em que ele enaltecia a importância de se ler obras antigas, de como elas nos influenciam e nos levam a pensar sobre o que há de errado na nossa sociedade atual. Ele falou sobre livros mas poderia muito bem ter falado sobre a música.
Assim como os livros, a música dá uma visão, por mais superficial ou breve que seja, da sociedade onde foi feita.
Eu não gosto de escrever sobre isso pois tento abster-me de qualquer manifestação em assuntos considerados polêmicos ou importantes, pois pra mim, são em grande maioria extremamente entediantes.
De qualquer forma, outro dia eu estava ouvindo Beatles, e acabei prestando um pouco de atenção na letra.
You'll let me be your man
And please, say to me
You'll let me hold your hand."
A primeira coisa que me veio à cabeça quando fiz a comparação entre essa música e as de hoje em dia foi: Onde é que isso se perdeu? Quando, em que momento da história partimos de segurar as mãos para "passar nela"?
É certo que em alguns pontos, a nossa sociedade melhorou. Temos liberdades que as pessoas sequer sonhavam antigamente, mas a que custo? Foi realmente necessário deixar a decência para trás? Não me intrometo nesses assuntos, pois como já disse, os considero extremamente chatos. Deixo isso para os pseudo-ativistas que pareceram brotar de repente, prontos para fazer a diferença.
O jovem hoje gosta é de sentar a bunda na cadeira, entrar no twitter e salvar o mundo. Tudo isso sem sair de casa, tranquilo no ar condicionado, tomando um suco gelado. Incapazes de adotar uma causa por conta própria, contentam-se em repassar links e mostrar sua indignação, repetindo o que leram muitas vezes sem pesquisar a fundo o assunto, fazendo papel de trouxa.
Se tivesse de escolher um papel para o jovem hoje, com certeza seria esse, o de trouxa.
Indignado com os escândalos políticos, com o aumento do preço do ônibus e a falta de ciclovias ele não deixa barato. Chega em casa revoltado, e com razão. Senta na cadeira e liga o computador, pronto para representar seu papel.
Dia após dia.
sábado, 31 de março de 2012
sábado, 24 de março de 2012
Uma história
Eu não quero um gênero, uma definição ou uma análise. Eu quero uma história.
Eu não quero épico, lírico ou drama e não me importa ritmo, metro ou rima. Eu quero uma história.
Elegia, soneto, ode ou écloga não importa. O que eu quero é uma história.
Não preciso de uma tragédia para me comover, ou de comédia para rir, tudo o que eu preciso é uma história.
Não preciso dissecar um poema para enxergar sua beleza, ou recorrer a rótulos para saber do que se trata, porque não importa.
Eu não busco romance, poesia ou crônica, eu busco uma história.
Não leio gêneros, eu leio histórias, não leio poesias, mas sim sentimentos.
Não preciso saber o número de versos, ou conhecer a terza rima para enxergar a grandiosidade de uma viagem reservada apenas para as almas que já se foram. Do inferno ao paraíso, o gênero, metro e rima ficam para trás, meros coadjuvantes, pano de fundo do palco em que a grande protagonista é a história.
Tudo isso, gêneros, definições, classificações e rótulos não são dignos de estudo. Pode ter uma métrica perfeita, ritmo e rima maravilhosos, e mesmo assim serão apenas classificações, componentes que trabalham para algo maior.
Deixemos tudo isso de lado, e estudemos o que importa. Estudemos as histórias.
Eu não quero épico, lírico ou drama e não me importa ritmo, metro ou rima. Eu quero uma história.
Elegia, soneto, ode ou écloga não importa. O que eu quero é uma história.
Não preciso de uma tragédia para me comover, ou de comédia para rir, tudo o que eu preciso é uma história.
Não preciso dissecar um poema para enxergar sua beleza, ou recorrer a rótulos para saber do que se trata, porque não importa.
Eu não busco romance, poesia ou crônica, eu busco uma história.
Não leio gêneros, eu leio histórias, não leio poesias, mas sim sentimentos.
Não preciso saber o número de versos, ou conhecer a terza rima para enxergar a grandiosidade de uma viagem reservada apenas para as almas que já se foram. Do inferno ao paraíso, o gênero, metro e rima ficam para trás, meros coadjuvantes, pano de fundo do palco em que a grande protagonista é a história.
Tudo isso, gêneros, definições, classificações e rótulos não são dignos de estudo. Pode ter uma métrica perfeita, ritmo e rima maravilhosos, e mesmo assim serão apenas classificações, componentes que trabalham para algo maior.
Deixemos tudo isso de lado, e estudemos o que importa. Estudemos as histórias.
sábado, 17 de março de 2012
A beleza do tempo
Era uma sexta-feira. Ou um sábado. Ou uma quarta. Mas não importava, não aqui. Vim para cá justamente para isso, fugir das correntes do tempo. Aqui ele simplesmente não importava. Vou vivendo, um dia após o outro, passe tempo ou não. Assim que descobri que a vida é curta demais para desperdiçá-la, fugi da cidade. Aqui a única fila que existe é a do gado voltando do pasto, guiado pelo cavaleiro em seu cavalo, com o pôr do sol como paisagem.
Eu tinha acabado de trazer o gado do pasto, e o Sol estava maravilhoso. Por mais que eu tente, é impossível explicar. Desde onde o céu encontrava a terra até acima de minha cabeça, o céu estava laranja, vermelho e azul. As nuvens passavam, tentando diminuir a velocidade para apreciar aquela perfeita obra de arte. Eu ainda precisava ir à vila comprar velas, pois as minhas haviam acabado, e não é nada bom ficar no escuro. Eu gosto de ler antes de dormir, e fico acordado até tarde, o máximo que eu conseguir, o que deve ser por volta das oito da noite, mas como eu disse, aqui, isso não importa. Decidi deixar as velas para depois.
Sentei-me ao pé de uma árvore e fiquei olhando a coisa mais bonita que eu já havia visto. Era exatamente por esses momentos que eu havia me mudado. Estava cansado de acordar e não ver o Sol nascer por ter de correr até o trabalho, de depois do almoço não poder parar e sentar ao pé de um poste (árvores boas são difíceis de achar em São Paulo) e aproveitar aquela sombra para descansar e ver as nuvens passarem, ou de não ver as estrelas por causa da poluição. Nesse momento, sentado, a vida fazia sentido, e meus olhos abriam-se cada vez mais, querendo gravar aquele momento para sempre na memória. Sinto até um pouco de dó das pessoas que passam a vida tentando explicá-la, pois nem que vivessem mil anos o seriam capazes de fazer. Certas coisas não se explicam, se sentem, e a vida é só mais uma delas.
Meu olho agora ardia, e o Sol já estava quase se escondendo atrás de um monte. Fiquei pensando em como é que pode nossos olhos arderem diante de algo tão belo.
Levantei, e fui, sem pressa, à vila para comprar as velas. Quando cheguei na vendinha, já estava escuro, e o Seu Raimundo estava fechando, mas com o bom humor de sempre me atendeu e batemos papo. Aqui as pessoas não têm pressa. Mesmo assim, despedi-me dele e tomei o caminho de volta. Acendi uma vela para não pisar em buracos. Gostava da chama e das sombras, que hipnotizavam com sua dança. Ao meu lado, passou uma moça, e quando a luz da vela iluminou seu rosto, meus olhos arderam e o tempo começou a importar. Meus olhos arderam muito mais do que haviam ardido quando olhei para o Sol, e implorei ao tempo para que ele parasse naquele instante, mas não parou, talvez ressentido pelo fato de eu não ligar para ele.
Não importa o que os estudiosos dizem, mas nossos olhos não ardem por causa da luz ou por qualquer outro motivo, e sim por causa da beleza.
Vocês não sabem nada. Mas acho que isso vocês já sabem.
Eu tinha acabado de trazer o gado do pasto, e o Sol estava maravilhoso. Por mais que eu tente, é impossível explicar. Desde onde o céu encontrava a terra até acima de minha cabeça, o céu estava laranja, vermelho e azul. As nuvens passavam, tentando diminuir a velocidade para apreciar aquela perfeita obra de arte. Eu ainda precisava ir à vila comprar velas, pois as minhas haviam acabado, e não é nada bom ficar no escuro. Eu gosto de ler antes de dormir, e fico acordado até tarde, o máximo que eu conseguir, o que deve ser por volta das oito da noite, mas como eu disse, aqui, isso não importa. Decidi deixar as velas para depois.
Sentei-me ao pé de uma árvore e fiquei olhando a coisa mais bonita que eu já havia visto. Era exatamente por esses momentos que eu havia me mudado. Estava cansado de acordar e não ver o Sol nascer por ter de correr até o trabalho, de depois do almoço não poder parar e sentar ao pé de um poste (árvores boas são difíceis de achar em São Paulo) e aproveitar aquela sombra para descansar e ver as nuvens passarem, ou de não ver as estrelas por causa da poluição. Nesse momento, sentado, a vida fazia sentido, e meus olhos abriam-se cada vez mais, querendo gravar aquele momento para sempre na memória. Sinto até um pouco de dó das pessoas que passam a vida tentando explicá-la, pois nem que vivessem mil anos o seriam capazes de fazer. Certas coisas não se explicam, se sentem, e a vida é só mais uma delas.
Meu olho agora ardia, e o Sol já estava quase se escondendo atrás de um monte. Fiquei pensando em como é que pode nossos olhos arderem diante de algo tão belo.
Levantei, e fui, sem pressa, à vila para comprar as velas. Quando cheguei na vendinha, já estava escuro, e o Seu Raimundo estava fechando, mas com o bom humor de sempre me atendeu e batemos papo. Aqui as pessoas não têm pressa. Mesmo assim, despedi-me dele e tomei o caminho de volta. Acendi uma vela para não pisar em buracos. Gostava da chama e das sombras, que hipnotizavam com sua dança. Ao meu lado, passou uma moça, e quando a luz da vela iluminou seu rosto, meus olhos arderam e o tempo começou a importar. Meus olhos arderam muito mais do que haviam ardido quando olhei para o Sol, e implorei ao tempo para que ele parasse naquele instante, mas não parou, talvez ressentido pelo fato de eu não ligar para ele.
Não importa o que os estudiosos dizem, mas nossos olhos não ardem por causa da luz ou por qualquer outro motivo, e sim por causa da beleza.
Vocês não sabem nada. Mas acho que isso vocês já sabem.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Copa inter-galáxias 641274, e campeão de Xadrez interplanetário.
Olá. Meu nome é Prgntinaikus Esktluano² III. Eu não sou daqui. Sou de Plutículos prostibulus fertílus I.
Estou só de passagem. A Terra não é um bom planeta. Seu ar tem pouquíssimo carbono, por isso preciso utilizar nove dos meus dez narizes para realizar a darcocintesy, o que diminuirá consideravelmente meu tempo de vida. Seu asfalto é áspero, de modo que machuca minha língua. Seu Sol é escuro demais, então vendi meus olhos para comprar um rim novo, e agora posso ouvir bem melhor.
Vocês humanos são feios (provavelmente já te disseram isso). Têm aquela penugem ridícula no topo das cabeças, e alguns de vocês parecem mesmo gostar daquilo. Dica de quem já viu três galáxias no passado, presente, futuro e pretérito mais que imperfeito; essa coisa que vocês chamam de cabelo é super "last millenium", que a última vez que vi um desses na siraP fashion year eu ainda não havia desenvolvido por completo meu octasexagonal dedo do pé horizontal.
Seu padrão de beleza deturpado é o mais esquisito de toda a galáxia. De acordo com minhas observações (que estão sempre corretas), vocês cultuam o obeso mórbido. Sei disso pois li diversas vezes sobre os enchimentos que as mulheres vivem colocando para se sentirem mais gordas, o tal do silicone. Esqueceram de avisar a elas sobre o McDonalds. ( Sim, o McDonalds existe em todas as galáxias possíveis, assim como a Coca-Cola, e não, os humanos não inventaram nenhum dos dois.)
Agora vou parar de escrever. Esse grafite arcaico utilizado por vocês resseca meus poros utantinos e está na hora de eu arrancar meu oitavo braço. Sim, parabéns pra você que adivinhou, hoje é meu aniversário, e agora só me restam sete séculos até eu ir de encontro ao Paulo Coelho.
Mas antes de ir, gostaria de registrar uma coisa.
Vocês humanos, são muitos estranhos.
Estou só de passagem. A Terra não é um bom planeta. Seu ar tem pouquíssimo carbono, por isso preciso utilizar nove dos meus dez narizes para realizar a darcocintesy, o que diminuirá consideravelmente meu tempo de vida. Seu asfalto é áspero, de modo que machuca minha língua. Seu Sol é escuro demais, então vendi meus olhos para comprar um rim novo, e agora posso ouvir bem melhor.
Vocês humanos são feios (provavelmente já te disseram isso). Têm aquela penugem ridícula no topo das cabeças, e alguns de vocês parecem mesmo gostar daquilo. Dica de quem já viu três galáxias no passado, presente, futuro e pretérito mais que imperfeito; essa coisa que vocês chamam de cabelo é super "last millenium", que a última vez que vi um desses na siraP fashion year eu ainda não havia desenvolvido por completo meu octasexagonal dedo do pé horizontal.
Seu padrão de beleza deturpado é o mais esquisito de toda a galáxia. De acordo com minhas observações (que estão sempre corretas), vocês cultuam o obeso mórbido. Sei disso pois li diversas vezes sobre os enchimentos que as mulheres vivem colocando para se sentirem mais gordas, o tal do silicone. Esqueceram de avisar a elas sobre o McDonalds. ( Sim, o McDonalds existe em todas as galáxias possíveis, assim como a Coca-Cola, e não, os humanos não inventaram nenhum dos dois.)
Agora vou parar de escrever. Esse grafite arcaico utilizado por vocês resseca meus poros utantinos e está na hora de eu arrancar meu oitavo braço. Sim, parabéns pra você que adivinhou, hoje é meu aniversário, e agora só me restam sete séculos até eu ir de encontro ao Paulo Coelho.
Mas antes de ir, gostaria de registrar uma coisa.
Vocês humanos, são muitos estranhos.
terça-feira, 13 de março de 2012
Sonho de papel
Em frente ao teclado quem digita é Pedro, o "escritor".
Sentado na cadeira, em frente a um monte de papel com caneta na mão quem escreve é Pedro, o garoto preguiçoso que sonha em tornar-se escritor.
A razão mais provável, porém, que explique meu bloqueio mental é eu mesmo. A culpa não é minha, mas sim da caneta e do cheiro de papel.
Agora mesmo, estou escrevendo apenas por escrever. Não tive nenhuma ideia, e não sei como vai acabar o texto. Estou pura e simplesmente escrevendo. Eu gosto do jeito como a caneta desliza. Azul, profunda e superficial, rápida porém firme, caprichosa e prática. Eu gosto das canetas, especialmente as azuis. Não são tão lúgubres como as pretas, ou vivas com as vermelhas, mas seus traços são sérios o suficiente para se fazer ouvir e suaves o suficiente para arrancar uns risos. Eu gosto de canetas, canetas azuis.
Agora me deu vontade de ser como uma caneta. Ela é útil, pode ser alegre ou triste, séria ou brincalhona, dependendo de quem a maneja, porém possui vida limitada. Uma hora acaba, e nessa parte não é tão diferente de nós. Pode ter seu fim por uso ou falta dele. Se eu fosse uma caneta, gostaria que fosse por uso, mas não muito cedo. Com certeza iria querer conhecer outras canetas. Pessoalmente, admito ter uma quedinha pelas ruivas, mas nada definido. Não se pode escolher uma caneta pela sua cor. Há de considerar formato e tamanho do tubo, material e etc... Mas acredito que saberei qual é a especial quando a vir. Não sei qual tipo de sinal esperar, mas algo como uma tampa caída e um jato de tinta não é pedir muito.
Agora, com a mão cansada, lembro que não posso ser uma caneta. Esse é o ponto baixo de escrever. Te enche de sonhos, projeções, te dá uma vida e depois as tira, tão de repente quanto vieram. Mas nada me impede, de amanhã, com a mão descansada escrever uma história. Provavelmente seria um romance de amor. Já sei até como começar: "Vi a tampa avermelhada, senti o cheiro que sua tinta exalava e minha ponta tremeu. Tremeu, e soltou tinta. Torci para que, quando ele parasse de escrever, que nos colocasse juntinhos. Um do lado do outro."
domingo, 11 de março de 2012
Crítica (in)construtiva
- Pai, o que é uma crítica construtiva? - Pergunta o garotinho com o típico entusiasmo de quando se tem cinco anos.
O pai, que não perde uma oportunidade de impressionar o filho, fecha o jornal, arruma os óculos, solta um longo suspiro e finalmente diz: - Você quer saber o que é crítica construtiva? - O garoto concorda freneticamente com a cabeça.
- Filho, crítica construtiva é quando você faz um comentário que ajude a pessoa a melhorar.
O pequeno faz uma cara estranha, como quem não entendeu nada, mas prefere não admitir.
- Entendeu, filho? - diz o pai com medo da resposta.
- Então quer dizer que, qualquer crítica que eu fizer sobre alguém que possa ajudá-la a melhorar é uma crítica construtiva?
- Sim. - o pai finalmente respira aliviado, e volta pro jornal.
- Mas pai, então essa divisão entre crítica e crítica construtiva não é inútil? Porque, no fim das contas, qualquer crítica feita a alguém pode ser usada para levá-la a melhorar em determinado aspecto. Independentemente da forma com que se expõe o problema, cabe à pessoa refletir sobre ele para aprimorar seja qualquer for o objeto da crítica. Sendo assim, toda crítica é construtiva e essa divisão não passa de uma tentativa dos membros fracos da sociedade de escaparem da verdade sobre suas atitudes e trabalhos. Certo?
O pai está com a boca aberta e completamente surpreso. Cinco anos, e já tem uma visão tão única das coisas. Esse meu filho é um gênio, pensa o pai orgulhoso de sua cria.
- Se pensarmos dessa maneira - diz o pai - sim, toda crítica é construtiva.
O pai volta pro jornal, planejando como contaria a todos sobre a inteligência do filho. Mas o filho continuava parado, meio escondido pelo jornal.
- Pai, posso fazer uma crítica construtiva?
- Claro, filho.
- Você explica muito mal.
E o pequeno vai embora, cuidar de seus brinquedos.
O pai, que não perde uma oportunidade de impressionar o filho, fecha o jornal, arruma os óculos, solta um longo suspiro e finalmente diz: - Você quer saber o que é crítica construtiva? - O garoto concorda freneticamente com a cabeça.
- Filho, crítica construtiva é quando você faz um comentário que ajude a pessoa a melhorar.
O pequeno faz uma cara estranha, como quem não entendeu nada, mas prefere não admitir.
- Entendeu, filho? - diz o pai com medo da resposta.
- Então quer dizer que, qualquer crítica que eu fizer sobre alguém que possa ajudá-la a melhorar é uma crítica construtiva?
- Sim. - o pai finalmente respira aliviado, e volta pro jornal.
- Mas pai, então essa divisão entre crítica e crítica construtiva não é inútil? Porque, no fim das contas, qualquer crítica feita a alguém pode ser usada para levá-la a melhorar em determinado aspecto. Independentemente da forma com que se expõe o problema, cabe à pessoa refletir sobre ele para aprimorar seja qualquer for o objeto da crítica. Sendo assim, toda crítica é construtiva e essa divisão não passa de uma tentativa dos membros fracos da sociedade de escaparem da verdade sobre suas atitudes e trabalhos. Certo?
O pai está com a boca aberta e completamente surpreso. Cinco anos, e já tem uma visão tão única das coisas. Esse meu filho é um gênio, pensa o pai orgulhoso de sua cria.
- Se pensarmos dessa maneira - diz o pai - sim, toda crítica é construtiva.
O pai volta pro jornal, planejando como contaria a todos sobre a inteligência do filho. Mas o filho continuava parado, meio escondido pelo jornal.
- Pai, posso fazer uma crítica construtiva?
- Claro, filho.
- Você explica muito mal.
E o pequeno vai embora, cuidar de seus brinquedos.
sexta-feira, 9 de março de 2012
A primeira vez
Todo mundo já cansou de ouvir que a primeira vez a gente não esquece, e é verdade. Eu ainda me lembro, como se fosse ontem. Lembro da preparação, do medo de não ficar bom, todas as inseguranças que nos afligem quando o assunto é algo desconhecido. Pensei varias vezes em adiar, estava morrendo de medo. "Imagina se eu estrago tudo?" Pensava comigo mesmo. Se a primeira impressão é a que fica, então a primeira vez é a mais importante e eu não queria estragar isso de jeito nenhum.
Lembro de ouvir as pessoas comentando, com água na boca enquanto discutiam os detalhes e trocavam dicas sobre como torná-lo mais saboroso.
Eu era jovem, e apesar de ter uma noção do que fazer, não tinha certeza se seria bom. Passei uma semana matutando o assunto e decidi que bom ou não, eu teria de fazê-lo. A primeira vez não precisava ser necessariamente boa. Do mesmo jeito que agora sabia equações enquanto um ano atrás nem imaginava como fazer, coloquei na cabeça que aquilo também poderia ser aprendido.
Era uma quarta-feira, estava sozinho em casa e decidi pôr mãos à obra.
Comecei, e a coisa foi esquentando. Não sabia quanto colocar, nem se estava colocando da forma adequada, mas enfim, como eu já disse inúmeras vezes, era a minha primeira vez.
O calor era palpável e decidi que estava na hora. Peguei e despejei, senti o calor fluir e os odores se misturarem no ar enchendo minhas narinas. Por enquanto, tudo certo.
Mas agora havia chegado a hora do temido momento decisivo.
Peguei a xícara, e quase a deixei cair. Estava quente demais mas segui em frente. Tomei o primeiro gole, de olhos fechados, esperando que o resultado tivesse saído tão bom quanto esperado. Foi bom, e apesar de a primeira vez ser memorável, ela não é a melhor. Nem de longe.
A primeira vez é estranha, mas fica cada vez melhor.
Lembro de ouvir as pessoas comentando, com água na boca enquanto discutiam os detalhes e trocavam dicas sobre como torná-lo mais saboroso.
Eu era jovem, e apesar de ter uma noção do que fazer, não tinha certeza se seria bom. Passei uma semana matutando o assunto e decidi que bom ou não, eu teria de fazê-lo. A primeira vez não precisava ser necessariamente boa. Do mesmo jeito que agora sabia equações enquanto um ano atrás nem imaginava como fazer, coloquei na cabeça que aquilo também poderia ser aprendido.
Era uma quarta-feira, estava sozinho em casa e decidi pôr mãos à obra.
Comecei, e a coisa foi esquentando. Não sabia quanto colocar, nem se estava colocando da forma adequada, mas enfim, como eu já disse inúmeras vezes, era a minha primeira vez.
O calor era palpável e decidi que estava na hora. Peguei e despejei, senti o calor fluir e os odores se misturarem no ar enchendo minhas narinas. Por enquanto, tudo certo.
Mas agora havia chegado a hora do temido momento decisivo.
Peguei a xícara, e quase a deixei cair. Estava quente demais mas segui em frente. Tomei o primeiro gole, de olhos fechados, esperando que o resultado tivesse saído tão bom quanto esperado. Foi bom, e apesar de a primeira vez ser memorável, ela não é a melhor. Nem de longe.
A primeira vez é estranha, mas fica cada vez melhor.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Hobby de dona Neusa
Senti-me na obrigação de compartilhar com todos a história de dona Neusa. Uma pacata senhora que desde sua juventude sofre por seu hobby hm... singular. Desde pequena, sempre foi educada em meio à leitura. Leu poesias, romances, peças, contos e crônicas. Mas foi aos nove anos de idade que Dona Neusa (na época Neusinha), encontrou-se nas letras.
Ainda lembra-se como se tivesse acontecido ontem. Durante o papo que tive com ela, seus olhos brilharam e suas pausas eram marcadas por longos suspiros de saudade, daqueles que soltamos involuntariamente durante certos devaneios ao narrar sua primeira vez.
Recitou, uma a uma, as palavras que a haviam marcado há tanto tempo, e desde então carregava no peito.
Relatou, com lágrimas nos olhos e voz carregada, a dificuldade em encontrar alguém que partilhasse de seu amor pelas complexas palavras que enfeitavam a página branca como a neve, que era muitas vezes desprezada e amassada, como se fosse algo sem importância. Um mero informativo, diriam alguns.
Mas ela não ligava para as marcas de maltrato que acompanhavam aqueles frágeis páginas. Ela acolhia-as como filhas, e ia aos poucos fazendo-as esquecer dos tempos ruins. Dentro de pouco tempo, o papel estava novo, sem qualquer sinal de mágoa. Dona Neusa têm esse efeito sobre as pessoas.
Quis mostrar-me como ler tal gênero, e assisti atentamente seu ritual.
Pegou seus óculos de leitura - aquelas letras não favoreciam em nada pessoas com olhos fracos - e sentou-se na poltrona com a luminária acesa mandando sua luz por cima do ombro. Mesmo após quarenta anos de experiência na área, todos os dias deparava-se com palavras novas, bonitas e complexas, que fluíam de seus lábios como o canto de um pássaro.
Leu com a voz doce como mel, um de seus favoritos, o Mioflex-A. Já soube aquele inteiro de cabeça, mas a idade não estava ajudando, e até mesmo os clássicos iam sumindo no baú da memória.
Ouvi palavras que jamais pensei existir, como: péptica, anamnese, dispepsia, hematócrito, pruriginosas, eritematosas e teratogênicos, apenas para citar algumas.
Você, assim como eu, provavelmente sentiu-se totalmente perdido, e não, o contexto não vai ajudá-lo a compreender aqueles significados. Enquanto estava na casa de Dona Neusa, não vi um dicionário sequer. Ela também não sabia o que significava, e não precisava. A beleza está na boca de quem lê, e a voz de Dona Neusa era extremamente bonita.
Depois de acabada a leitura, jogava o remédio fora.
Só guardava o que curava.
E partia é claro, para a próxima bula.
domingo, 4 de março de 2012
Não entre em pânico!
Escrito em letras garrafais, na capa do Guia, a frase representa talvez uma das coisas mais impossíveis de se fazer nos dias de hoje. Não entrar em pânico.
Pode até ser, que em algum planeta de alguma galáxia isso seja possível. Mas não no nosso. Essa bolinha azul em constante movimento não nos dá esse luxo. Eu não sei o que você faz na vida, e para bem da verdade, não me interessa. Você pode ser um empresário, pastor, astronauta ou membro de um templo budista. Em qualquer caso, você eventualmente e inevitavelmente entrará em pânico.
Não sou eu quem vai dizer o que se deve fazer ao entrar em pânico, até porque a melhor resposta possível seria não entrar. Mas esse planeta que vivemos não é feito de boas respostas. É feito de paradoxos e antíteses, incompreensíveis a essa teimosa raça que se acha mais importante que as outras. Essa raça que se acha tão mais importante, que se adianta e se diz pronta para salvar o mundo. Mas, quem disse que o mundo precisa ser salvo? Como já disse George Carlin, o planeta está bem. As pessoas que estão ferradas.
Pare de tentar salvar o mundo, e salve a você mesmo. Durma mais, coma mais, beba mais e leia mais. Corra mais, viva mais e sobreviva menos. Pare de olhar o relógio para tentar fazer o tempo passar mais rápido e fazer algo divertido. Faça daquele, e todos os momentos possíveis divertido. Tire o fone no ônibus, ouça a conversa dos outros, corra na chuva e aproveite o momento.
Não, isso não será nenhum tipo de guia para melhorar sua vida, até porque ela não me interessa. Mas faça com que ela interesse para você. Não prometo mudar sua vida, mas de pouquinho em pouquinho, tentarei mostrar algumas das coisas que tornam a minha vida interessante para mim, e espero que te interesse também.
Este blog é para você que: gosta de humor, livros, filmes, documentários e, obviamente, não tem nada melhor pra fazer. Não é nada. Apenas a história de um garoto, um caderno, uma alabarda e como isso afetou a vida de um armário.
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